quinta-feira, 31 de março de 2011

Diante do impossível


Confesso, confesso que o Sol me ocupa o coração. A minha paixão por ele revelou-se assim que pus os meus óculos de sol sem moda alguma, velhos mas rústicos, nada parecidos com trapos. Para revelar este meu novo amor, nem palavras bastaram para o explicar à rapariga simpática que estava a meu lado, com os olhos semi-cerrados, mostrando o seu cansaço e pestanas queimadas por viver no mundo do secundário, dentro de matacões sem fim, absorvendo todos os pormenores da matéria de Filosofia. Nem com tantos motivos quanto os capítulos do tal livro eu era capaz de me explicar e ser percebida, quanto mais ouvida. Era como se a minha língua estivesse de travão posto e a embraiagem não trabalhasse. Os jovens a meu redor só pareciam entender a nossa gíria habitual e eu, ao falar de um modo mais correcto e elaborado, nunca era compreendida. Punha as mãos à cabeça quando me apercebia que todos eles não davam o devido valor ao Sol. Para mim, não era apenas uma estrela. Ele acompanhava todos os meus passos, aquecia-me e deixava-me andar de t-shirt sempre que quisesse. Nem a minha querida mãe algum dia me deu esta liberdade toda, nunca me concretizou tantos desejos de uma só vez. Era ele o meu Deus. Aquela esfera flamejante e misteriosa, bem quente e sempre atenta ao que se passava nos outros planetas. Já me imaginava a ir ter com ele e dizer que o queria para sempre, mas depois vinha a noite, que me deixava sozinha e indefesa. O nosso amor era impossível, nunca poderíamos estar juntos e ele nunca se apaixonaria por uma simples e vulgar terrestre como eu. Entretanto, eu continuava a sonhar, porque, para além dos raios de sol, os sonhos iluminavam a minha vida.

sábado, 26 de março de 2011

Gerações à mistura


«Sabes, naquela época nem haviam tantos carros como há agora. Como os tempos mudaram! Eu costumava andar nas ruas com a tua tia-avó, às compras, desde a Baixa até aqui, a este café que dantes era uma simples mercearia. Andávamos por aí como se cada travessa, cada rua, fosse a nossa própria passerele. Tinha uma cintura de vespa, uns lábios carnudos, olhos brilhantes e cabelo sempre arranjado. A tua tia? Ah, também se safava, a jeitosa. Fazíamos uma dupla espantosa e a tua tia, sempre de cigarro na boca, ainda dava mais nas vistas. Sim, porque naquela altura não era muito vulgar ver uma mulher a fumar! Bem, entretanto, onde é que eu ia? Ah, as passereles! Dávamos um autêntico espectáculo e até tínhamos a nossa própria banda sonora - os assobios dos homens, se é que me entendes. Mal o meu pai sabia que eu saía de casa naqueles prepáros! Mas quando eu ia embora de manhã, ele já não estava lá. Naquela altura, os homens madrugavam para ir trabalhar para os campos que nem eram deles. Eram explorados até ao tutano mas não tinham a lata de se queixarem aos patrões ou aos sindicatos ou como é que isso se diz! O importante era trazer o pão para casa todos os dias e eu, desde que tivesse sempre o meu baton vermelho e a minha saia da moda por cima do joelho, não me importava com nada. E hoje? Se for à Baixa alguma vez é porque Nossa Senhora fez acontecer outro milagre! Tanta confusão, tanto stress e correria que para lá há. Bem, comigo não resulta. Eu gosto é de paz e sossego que tenho no meu sofásinho da sala. Ai ai, que boa vida a minha!»
Confesso que ri, ri, ri sem parar. Por vezes, punha a mão na boca e virava-me para trás, para a minha avó não perceber. Quando contei aos meus pais esta conversa toda que aturei enquanto esperávamos por eles, tiveram a lata de gozar comigo! Bem, na verdade, até me deu um pouquinho de cultura geral, porque, apesar de encharcada em baboseiras, esta conversa sobre os anos cinquenta até teve o seu interesse peculiar.

E este foi o meu centésimo texto!
(Espero ter inspiração para virem muitos mais**)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Quando amamos, esperamos


Não desvalorizo. Conheço os seus direitos e deveres e compreendo também que não tem cumprido alguns deles. Não sei se é por pouca vontade, simples preguiça, mas sei que deixou muita gente desejosa à espera do veredicto final. Qual seria? Haveria um final feliz ou algo dramático? Encheu-os de dúvidas, isso tenho a certeza. E então ela? Ela que estava no mesmo banco de jardim há mais de três horas, aguardando pela conclusão, pelo último beijo que chegaria ao mesmo tempo que a conclusão da sua história. Não foi fácil. O mês de Fevereiro parecia ter chegado ainda mais cedo. De um jeito quase que autoritário, mandou vir do palácio dos deuses os ventos mais ferozes alguma vez criados. A verdade é que era mais um que se juntava ao grupo dos sábios, estes que não queriam que aquela rapariga, doce e encantadora, esperasse um conto de fadas vindo de um rapaz como ele. Durante este gesto um pouco rude do tempo, o rapaz continuava em casa, dando uso à palavra inércia. Ele não fazia ideia de que, naquele momento, a falha das previsões meteorológicas se devia toda a ele. Fez o mundo revoltar-se por estar a fazer sofrer a menina adorada por todos. E ela continuava ali, sentada, esperando pelo rapaz que sempre amou, porque quando amamos, esperamos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Carta de amor à Primavera


Minha querida Primavera:
Durante meses esperei por ti, ninguém sabe o quanto senti saudades tuas.
Agora sê boazinha para mim e não me chateies com as alergias (POR FAVOR!).
Gosto muito de ti ♥

sábado, 19 de março de 2011

Os saltos de Gabrielle #7


(...) A seguir de uma noite mal passada, vieram rapidamente espreitar à janela do quarto de Ariana inúmeros raios de sol. Ouviu-se o telefone a tocar. Sem vontade nenhuma, a garota levantou-se e, por ter ainda os olhos semi-cerrados, não reparou no visor, o qual mostrava que era Gabrielle quem lhe telefonava.
- Estou...? Quem fala?
- É a Gabi... Eu preciso urgentemente de falar contigo e, antes que digas alguma coisa, desculpa por todo o transtorno e preocupação que te causei.
- Tudo bem, mas...
- Mas nada. Vem ter ao sítio onde ontem fiz o teu retrato, às 10h. Não me atrasarei e espero bem que também não o faças. Até já.
Desligou. Deixou enormes suspeitas de que algo grave se passava e Ariana não sabia mais o que pensar. Durante vinte cinco dos trinta minutos que teve desde o telefonema ate sair de casa, andou de um lado para outro do quarto com um nervosismo cada vez maior.
Olhou para o relógio e reparou nas horas. Quando saiu, bateu com a porta. Toda aquela preocupação tinha-se transformado em raiva, raiva a qual que Ariana não conseguia mais controlar.
E assim que chegou ao sítio planeado, deu de caras com Gabrielle que naquele momento estava tão impaciente como ela.
- Ah, já chegaste...
- Sim Gabi, já cheguei.... Desembuchas?!
- Eh Ariana, eu sei que não te dás bem com situações destas, mas controla-te!
- Desculpa amiga, mas já tenho a cabeça a estoirar! Contas-me o que se passa por favor? Deixaste-me bastante preocupada.
- Sim, eu conto... Bem, é assim... - escorreu-lhe uma lágrima.
- Gabi, então? - disse Ariana.
- Calma, deixa-me acabar de falar! A minha mãe foi contratada para um trabalho de milhões na Austrália, e eu vou ter de ir com ela e... E abandonar-te Ariana... Desculpa!
Agarrou-se à amiga a chorar e enquanto repetia a palavra "desculpa". soluçava sem parar.
- Oh Gabrielle, não fiques assim... Deve ser só durante uns mesinhos e nós sobrevivemos a isso!
- Tu não percebes, é um contrato de quatro anos e a minha mãe não me quer deixar ficar cá! Eu morro sem alguém como tu a meu lado!
- Princesa, tem calma... Estejas onde estiveres, porque razão for, eu estarei sempre contigo. Não há fronteiras que nos separem, a nossa amizade é forte de mais. Se estiveres comigo, eu estou contigo, e isso nunca mudará.
- Prometes? - perguntou Gabrielle.
- Prometo! Para além disso com certeza que vamos ter mais um tempinho para estarmos juntas antes de ires...
- Faltam precisamente 19 minutos para o meu avião partir Ariana... Compreendes?
- O quê?! Então vamos fazer deles os melhores da nossa vida! Onde tens a tua bagagem?
- Acho que a minha mãe a leva toda, estava previsto eu ir ter ao aeroporto de táxi ou assim...
- Então vá, eu chamo um e vou contigo.
Tiveram tempo para parar no Starbucks mais perto e beber um café com leite. Ariana, desajeitada como é costume, entornou um pouco para a sua camisola, o que deu direito a umas belas de umas gargalhadas, apreciadas por ambas as garotas.
E tinha chegado a hora nunca esperada. A despedida, com emoções fortes, fez nascer lágrimas contidas até àquela hora.
- Acho que um simples "adeus" não basta, não é assim?
- Sabes que foste a rapariga mais fantástica que conheci?
- És uma querida, sua tosca, ahah. Sim, sim, também gosto bastante de ti!
- Ahah, parva! Olha, tenho uma coisa para ti...
- O que é?
- Toma, sapatos de salto alto iguais aos meus, para te lembrares de mim sempre que os usares.
- Eu lembraria todos os dias, mesmo sem qualquer amuleto teu. O importante são as marcas que me deixas no coração e que sempre permanecerão lá.
- Bem, está na minha hora. Para finalizar só te posso agradecer por tudo Ariana, por seres quem és e teres feito de mim quem sou. Obrigada e ai de ti que não me telefones todos os dias!
Abraçaram-se, trocaram impressões reforçadas de lágrimas e despediram-se, de forma difícil mas precisa.
Nunca o mundo tinha assistido a uma amizade assim, eterna e extremamente forte. Para sempre, diria eu.
Conto inventado e finalmente terminado, wow!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma questão de equilíbrio


Vejo nesse espelho o reflexo do que fui até agora. Vejo alguém alegre, uma rapariga sorridente e destemida. Aprecio a sua vontade de viver, as suas danças metafóricas e os gestos sem razão de ser. Gosto bastante do que vejo. Tenho então a ideia de virar a cara, como se fosse algo que me desse prazer. Mas não dá nenhum, porque daquele lado está o espelho inverso. Voltado ao contrário e de costas para mim, ele quase que me olha com estranheza e pouca vontade. Observa o seu inimigo, o espelho da face positiva. Encontro-me no meio de dois inimigos de longa data, sem saber o qual escolher. Depois de horas a pensar, decido ficar no meio, numa posição de equilíbrio. Escusado será dizer que detesto andar na corda bamba, por isso, ficarei aqui, parada.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Anatomia quebrada


Eu gosto, tu gostas, ele não. Tu não vens porque alguém não te deixa, e esqueces que a vontade própria existe. Tropeças e cais, apenas porque aquele caminho foi escolhido por outrem, e não por ti. A obrigação de o seguires é algo estremo e tão certo como a tua rotina. Mas parece que hoje decidiste ficar a dormir até tarde. Quebraste um hábito, algo que fazias tantas vezes que até te cansava. Porém, queixas da tua parte nunca foram ouvidas. Não tinhas minutos de inércia, nem amalgamavas responsabilidades. Fazias de ponteiro de relógio, com o mesmo percurso todos os minutos. Tinhas os músculos adaptados àquele trilho bem instável e cheio de peças por colocar. Foi então que os teus tendões saíram do sítio com tanta vontade como quem deixa a sua humilde casa para sair à noite. Se calhar até se estão a divertir com toda aquela algazarra, ruídos e gargalhadas embriagadas, mas esquecem-se de medir bem os problemas que te poderão provocar, poderás ficar até sem andar. Escrevo com o desejo profundo de não teres de te arrastar para o resto da vida. Assegura uma locomoção fácil, rápida e tradicional.