quinta-feira, 31 de março de 2011
Diante do impossível
sábado, 26 de março de 2011
Gerações à mistura
«Sabes, naquela época nem haviam tantos carros como há agora. Como os tempos mudaram! Eu costumava andar nas ruas com a tua tia-avó, às compras, desde a Baixa até aqui, a este café que dantes era uma simples mercearia. Andávamos por aí como se cada travessa, cada rua, fosse a nossa própria passerele. Tinha uma cintura de vespa, uns lábios carnudos, olhos brilhantes e cabelo sempre arranjado. A tua tia? Ah, também se safava, a jeitosa. Fazíamos uma dupla espantosa e a tua tia, sempre de cigarro na boca, ainda dava mais nas vistas. Sim, porque naquela altura não era muito vulgar ver uma mulher a fumar! Bem, entretanto, onde é que eu ia? Ah, as passereles! Dávamos um autêntico espectáculo e até tínhamos a nossa própria banda sonora - os assobios dos homens, se é que me entendes. Mal o meu pai sabia que eu saía de casa naqueles prepáros! Mas quando eu ia embora de manhã, ele já não estava lá. Naquela altura, os homens madrugavam para ir trabalhar para os campos que nem eram deles. Eram explorados até ao tutano mas não tinham a lata de se queixarem aos patrões ou aos sindicatos ou como é que isso se diz! O importante era trazer o pão para casa todos os dias e eu, desde que tivesse sempre o meu baton vermelho e a minha saia da moda por cima do joelho, não me importava com nada. E hoje? Se for à Baixa alguma vez é porque Nossa Senhora fez acontecer outro milagre! Tanta confusão, tanto stress e correria que para lá há. Bem, comigo não resulta. Eu gosto é de paz e sossego que tenho no meu sofásinho da sala. Ai ai, que boa vida a minha!»
Confesso que ri, ri, ri sem parar. Por vezes, punha a mão na boca e virava-me para trás, para a minha avó não perceber. Quando contei aos meus pais esta conversa toda que aturei enquanto esperávamos por eles, tiveram a lata de gozar comigo! Bem, na verdade, até me deu um pouquinho de cultura geral, porque, apesar de encharcada em baboseiras, esta conversa sobre os anos cinquenta até teve o seu interesse peculiar.
E este foi o meu centésimo texto!
(Espero ter inspiração para virem muitos mais**)
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