(...) Nunca tinha havido almoço que fosse devorado com tanta vontade e rapidez, caindo no estômago com uma satisfação extrema. Mas o que se seguia não era visto pelas garotas com tanta satisfação assim: a hora dos trabalhos de casa. É verdade, até as suas rotinas eram idênticas. Seguiam padrões, formas de ser, de vestir e de falar semelhantes. Sentiam-se como irmãs gémeas, mas não o eram. E só as vocações as conseguiam distinguir facilmente, pois cada uma tinha o seu jeito para um tema diferente e preciso. Gabrielle era a menina das Artes, envolvendo a arte de escrever, pintar, desenhar e esculpir. Ariana esmerava-se a estudar Matemática, Física, Química e Biologia. Completavam-se como um malmequer metade desfolhado.
Contudo, cada uma tinha de fazer o seu trabalho de casa e sabiam bem que aquela hora não era a indicada para esclarecer dúvidas e contar novidades à mistura, fazendo um simples, longo e demorado telefonema. E era isto mesmo que Ariana pensava quando o seu telefone tocou e o nome da sua melhor amiga apareceu no visor.
- Estou sim, Gabi? - disse ela.
Ouvia-se um choro baixinho, embrulhado em palavras que saíam trémulas do outro lado do telefone. Num ápice, Ariana revelou-se uma amiga bastante preocupada por tantos soluços ouvir, algo que não era muito normal de Gabrielle.
- Não te estou a perceber amiga, que se passa?
- Desculpa mas neste momento não consigo falar contigo Ariana, eu pensava que conseguia, mas não consigo. - respondeu a garota.
Ariana só se lembrava do eco do último "desculpa" que tinha ouvido antes de Gabrielle ter desligado o telefone, deixando esta ainda mais alarmada e confusa. A garota só pensava se tinha dito, feito ou ouvido algo que não devia. Automaticamente, associou aquele choro e tristeza a ela própria, pensando então que a dona da culpa era ela. Imaginou um tribunal, imaginou-se a si própria como sendo o réu. Declarava-se como inocente, sem hesitação alguma.
Ligou-lhe mais de 14 vezes, deixou-lhe 9 mensagens de voz, mas nada, nem sequer uma resposta. Só ela sabia o estado de nervos em que estava, é que nem fazendo os exercícios mais difíceis de Matemática se conseguia concentrar! Foi então buscar os de Física, mas, de novo, não foi capaz. Era um turbilhão de perguntas sem resposta a correrem no seu cérebro, sem qualquer destino.
Do outro lado, Gabrielle estava deitada, a chorar há mais de duas horas. A dor de cabeça era muita, e o sono acabou por conquistá-la, fazendo com que esta nem sequer jantasse.
Conto inventado e com continuação.

