quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os saltos de Gabrielle #1


Gabrielle tinha a fama nas veias. Filha de cantora internacionalmente famosa, ela não fazia nada para ser reconhecida e, mesmo assim, ela era, até vezes de mais. Com os seus belos dezasseis anos e os seus tacões altos roubados do armário da irmã, era difícil não dar nas vistas por onde passava. Era a única que merecia um belo "bom dia" vindo de todos os membros da Direcção da Escola, quando chegava de limusina, pedida por encomenda a uns "franceses todos pipis", como Gabrielle dizia. Era dito e sabido que todos os olhares se centravam nela na aula de Expressão Plástica. Para além do seu estatuto social, este visto como algo fora do comum dentro da escola, também o seu jeito para desenhar era bastante fora do comum. Porém, este grande dote de Gabrielle em conjunto com todas as qualidades que ela teria, não eram valorizadas. Ela tinha plena consciência de que os interesses reinavam no meio de todas as razões que alguém teria para se aproximar dela. Ela era uma rapariga com toda a liberdade para sonhar bem alto, pois tinha mais que condições para concretizar esses tais sonhos. Mas preferia ter os pés bem assentes na terra. Sabia que tinha de estudar, de trabalhar e esforçar-se para ter uma boa vida e não se contentar apenas com o que os seus pais lhe podiam dar. Pensamento de adulta, diziam os mais sabidos. Mas houve um dia que alguém mudou a opinião dela sobre os outros, numa pequena e precisa acção.
Conto inventado com continuação.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Doce inocência

Ela corria, corria, corria, fugindo dele, que queria apenas fazer-lhe cócegas e rir-se um bocadinho. Quando parava, mudava de direcção, corria para ele. Dava-lhe um beijinho, sorria e soltava uma risada envergonhada. E fugia. Ele também sorria, pois os beijinhos dela eram como o doce chupa-chupa que todas as sextas-feiras a sua irmã mais velha lhe deixava. Sempre que a via sozinha, o pequenino dirigia-se a ela, e perguntava:
- Queres brincar comigo, Clarinha?
- Pode ser Diguinho.
- Brincamos aos pais e às mães?
- E podemos casar, assim numa igreja grande e com muitas flores?
- Sim, nós casamos, está descansada, Clarinha.


Ela sorriu de novo. Na maior das descontracções, eles lá arranjaram um cantinho que decoraram e fizeram de igreja. Juraram ser fiéis eternamente e, no fim, deram as mãos.
Faziam de todos os contos e brincadeiras o mundo deles, o mundo perfeito, que pensavam eles existir. Em todas as histórias, não havia um único arrufo, um único gesto que nos fizesse pensar, que, afinal, Rodrigo e Clara não estavam destinados um ao outro.
Cresceram, tornaram-se grandes e conscientes que o mundo é totalmente diferente do que um dia o imaginaram.